A superficie é mesmo um lugar seguro. Deve ser por isso que ninguem se arrisca a ir mais a fundo.
Na superficie a gente se machuca, mas na proxima esquina vende gelol.
Na superficie a gente sabe os caminhos e, caso se perca, tudo bem, dois minutos de desespero e o primeiro taxi aparece.
Na superficie a gente ate chega nos EUA sem falar muito bem ingles. Ta tranquilo, pra isso existe dicionario e simpatia.
Na superficie ha barulho, multidao e, sendo assim, pouco tempo pra se sentir sozinho. Ha bares, paqueras, esquemas, passeios. Por uma noite. Otimo, o que é a vida senao uma sucessao de noites?
Na superficie todos os riscos sao devidamente calculados; para o que der errado, um bom medico ou um bom advogado.
A superficie é mesmo um lugar seguro. De tao segura ate os sentimentos estao virando superficiais.
Sao amores pela metade, ate o limite do nivel do mar.
Dedica-se ao outro metade de si, e nao mais do que isso. Entregar-se todo é entrar em mar aberto e em mar aberto ha tempestades, ventos revoltos e uma solidao que, de tao grande, incomoda a alma. Faz a gente mostrar os medos, as fraquezas. E isso, absolutamente, nao é seguro.
Pois eu quero mesmo é viver no meio do mar.
La vai me faltar o ar, mas ao meu redor, vou ter corais e peixes e cores e plenitude. Entao vou ter tudo.
Quando me ferir, ao inves de gelol, sal pra me fazer chorar, gritar, querer morrer. Depois, vou ter a certeza de que até a maior dor do mundo passa e que tudo bem, se machucar faz parte da vida, faz da gente mais forte.
Por muitas vezes vai me faltar o chao, provavelmente vou me arrepender de nao ter permanecido na seguranca da superficie. Mas no momento seguinte, lembrarei de que la nao tem o infinito ao meu alcance.
Aonde eu vou viver tem tempestade, sim, é verdade. Mas tambem tem outros muitos dias de sol forte e de sentimentos intensos, que vao compensar a ressaca mais braba, as ondas mais violentas e me ensinar o que eu ja sei (em teoria): a vida é assim mesmo, so tem direito aos dias verdadeiramente bonitos quem sabe passar pelos dias nublados.
Por isso meu amigo, agradeco, mas vou ter que deixar seu barco seguir...
Dona Moca.
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